Casa de Cultura da Beira: 40 anos comemorados entre nostalgia e angústia

Notícias 22 de Agosto de 2007

O 20 de Agosto não é só dia da cidade da Beira, mas também da criação daquela que é a Casa Provincial de Cultura de Sofala, localizada na mesma urbe. A catedral das artes do Chiveve completou segunda-feira 40 anos de existência, ao mesmo tempo que a cidade no seu todo chegava ao seu centenário. As infra-estruturas que fazem a casa dos artistas e das artes beirenses clamam por uma reabilitação de raíz, dado o nível assustador da sua degradação. O facto descepciona de alguma maneira seus fundadores e frequentadores, que vêem o seu sonho a ser “assassinado”, mas as autoridades locais sossegam aos visados afirmando que há uma luz no fundo do túnel, com promessas de no próximo ano o problema passar para a história.

Foi na década de 60 que um grupo de nacionais e estrangeiros radicados no Chiveve e representados por três associações, designadamente Cine Clube da Beira, Centro de Cultura e Arte, Grupo Drámatico do Actor Eduardo Brazão, decidiram criar um local onde pudessem apresentar algumas manifestações culturais, que incluiam a projecção de filmes.

Este facto, que veio a ser concretizado com apoio do empresariado local, tendo a 20 de Agosto de 1967 sido inaugurado o auditório e a galeria de arte. Depois da proclamação da independência nacional, em 1975, o local passou a ser chamado de Casa Provincial de Cultura de Sofala. Passam assim 40 anos após a sua criação.

O dia da Casa Provincial de Cultura de Sofala coincide com o centenário da Beira, facto que fez com que tanto as estruturas de tutela e a sociedade civil se juntassem e promovessem várias manifestações culturais. A cidade ficou mais colorida com os enfeites colocados para o efeito. Foi um momento reencontro da grande família beirense, onde cada um à sua maneira procurou festejar com pompa e circunstância.

José Cardoso, decano do cinema nacional e fundador da Casa Provincial de Cultura da Beira, actualmente a residir em Maputo, não deixou escapar a data. Para o efeito, contribuiu para a festa com o lançamento do seu primeiro livro de contos, “Curandeiro Branco”.

Trata-se de uma obra que aborda, entre outros assuntos, o triste cenário que diz ter acontecido com um velho amigo que conseguiu salvar a vida de muitas pessoas com o seu conhecimento em matérias ligadas à medicina tradicional, mas que veio a morrer vítima de uma doença que mais sabia curar, o cancro.

Cardoso deixou claro que a obra, que trás vários trabalhos que criticam muitos episódios da nossa sociedade, é uma homagem a este grande amigo, o branco que aprendeu a ser curandeiro em Angola e Moçambique.

Revelou na ocasião que tem dois livros de contos na forja. Adiantou também que a sua entrada para a literatura é uma auto-reforma, uma vez que já não tem pés para correr com as câmaras. Cardoso é um dos cinastas mais velhos do país, conta actualmente com mais de 70 anos. “O Vento Sopra do Norte”, histórica longa-metragem do nosso país, é o filme que mais o destacou.

Questionado sobre o estágio actual da Casa Provincial de Cultura, Cardoso disse que “em princípio as obras não terminaram e nada foi feito para concluir. Por um lado, olho esta casa com nostalgia, porque sei que ela é resultado do empenho e esforços de jovens que queriam dinamizar a cultura. Por outro, com angústia porque vejo o nosso sonho a desabar aos poucos”. Cardoso disse ainda que a salvação da Casa Provincial de Cultura está nas mãos da juventude, porque, na sua opinião, esta faixa etária é a única que pode fazer a diferença no sentido positivo.

“Por favor, não deixem a Casa de Cultura desabar. Façam alguma coisa porque é a nossa identidade que está em jogo”, suplica, voluntariado-se a trabalhar com os fazedores da cultura no sentido de desenhar saídas para a salvação daquela que é a maior “Catedral das Artes” do centro do país.

Enquanto isso, Gil Pinto, decano da música tradiconal beirense, que faz parte do grupo dos artistas nacionais que a 20 de Agosto de 1967 actuou na cerimónia de inauguração do então Auditório, Galeria e Arte e agora Casa Provincial de Cultura de Sofala, disse reconhecer haver um forte crescimento no que diz respeito a formação de fazedores da cultura, mas deplora igualmente o facto das infra-estruturas estarem a registar uma degradação acentuada, sem, no entanto, haver uma intervenção de realce.

Mesmo assim, Pinto afirma ter “mil razões” para se sentir feliz. O 20 de Agosto é igualmente o dia do seu 42º aniversário de carreira musical. Não só, acaba de gravar pela primeira vez um disco que já está a ser negociado numa editora nacional. Admite-se, no entanto, que o trabalho em alusão esteja no mercado nacional dentro em breve. Trata-se do seu primeiro disco e conta com oito composições de carris tradicional, nomeadamente rumba, marrabenta e uma fusão de mandoa, utse e mapadza. Contudo, o autor de “Tina Tina” possui um repertório composto por 92 músicas, das quais 86 gravadas nos estúdios da Rádio Moçambique na Beira.

“É um ano histórico para mim, porque completo 42 como músico e pela primeira vez tive a oportunidade da gravar um disco. Foi um apoio do governador de Sofala, Alberto Vaquina. Também terei a oportunidade de gravar dois vídeoclipes, com apoio do empresariado local”, disse, depois de ter actuado num “show” que envolveu vários nomes sonantes do “Chiveve”.

Ficamos a saber na ocasião que o dono da famosa canção “Nhamadjuia” começou a cantar aos 16 anos, na Beira, na banda Manica-Sofala e era tocador de flauta, tendo depois fundado o conjunto Irmãos Moçambicanos (1970), de que era vocalista principal. “Isto foi quando estava na tropa e quando saí fundei os Camponeses da Munhava, já na década de 80”. Pinto veio mais tarde a pertencer à banda MK7, que fez muito sucesso na companhia do falecido Thaze. Agora actua nos Irmãos Sem Maldade.

Entretanto, Domingos Nhancalize, director da Casa Provincial de Cultura de Sofala, reconheceu que a sua instituição precisa de uma intervenção urgente, mas sossegou aos utentes que o problema tem dias contados, uma vez que é previsão das autoridades de tutela reabilitar as intra-estruturas em alusão já no próximo ano. Nhancalize falou igualmente da recente introdução de filmes para crianças, como forma de comparticipação na moralização da sociedade. Não só, a Casa de Cultura retomou com a formação de guitarristas, estando, no entanto, seis jovens a beneficiar do mesmo. Anotou que decorrem a bom rítimo os cursos de desenho e pintura, teatro, piano e culinária.

Para comemorar os 40 anos da Casa de Cultura e o centenário da Beira, muitas actividades foram programadas para celebrar a data. A semana cultural iniciou na passada quarta-feira com a realização de diferentes exposições e lançamento de livros, bem como espectáculos musicais, envolvendo vários nomes como são os casos de Isaú Meneses, Jorge Mamade, Carlos de Lina, Mussodjis, N’nhachas, Júlia Camissina, Helena Macamo, Afrotongas, Paula Augusto, entre outros. Os espectáculos em alusão foram realizados em diferentes locais e destaca- se o de domingo, que tinha Isaú Meneses como cabeça de cartaz, bem como contou com alguns nomes da capital do país, como é o caso de DOG.

Refira-se igualmente que o evento serviu de pretexto para os artistas da Beira se juntarem numa noite dançante realizada na Casa Provincial de Cultura, que serviu para reflectir sobre o estágio actual das artes no Chiveve, com os fazedores a concluirem que ainda há muito por ser feito em prol da cultura.

Este aspecto foi também vincado durante o lançamento do livro “Desenvolvimento Cultural da Cidade da Beira”, da associação Casa do Artista. Trata-se de uma obra que conta com nomes como Silva Dunduro (que se encarregou pelo texto), Fernando Mendes, Alex Dunduro, Inês Brito (todos trabalharam nas imagens) e António Sopa, que coordenou o projecto.

Intervindo na ocasião, Silva Dunduro lamentou pelo facto da cultura estar alegadamente a ser “marginalizada” por quem deveria dinamiza-la. Para sustentar o seu posicionamento, Dunduro disse que “muitas vezes parece que a cultura se reduz à organização de canto e dança para a recepção de um grande dirigente, o que não pode ser. A cultura é muito mais, ela é a nossa dignidade e o símbolo da nossa existência.


EDUARDO SIXPENCE



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